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/ / / A história por trás de "2012, Miopia"

A capa do compacto, lançado em 2013.

Completando, no primeiro trimestre de 2022, dez anos, 2012, Miopia continua sendo uma das nossas mais importantes canções, sempre pedida por fãs e ainda recebendo comentários no YouTube e outras plataformas, em muito se devendo a elementos na letra que seguiram se repetindo até hoje, sobretudo na sociedade brasileira, o que não era a minha intenção quando a compus: a ideia de uma música chamada 2012, Miopia era ser propositadamente datada, como uma espécie de "fotografia sonora" dos acontecimentos que mais me chamaram a atenção naquele momento.

Penso que, para analisar profundamente esta canção, devo abordar pelo menos quatro aspectos: 1) a letra em si; 2) o processo de criação musical junto à banda e sua inserção ao nosso repertório 3) a produção do fonograma e 4) a repercussão junto ao público. Neste texto, tentarei abordar todos, mas não me debruçando tanto sobre o item 1, que ganhará um texto próprio, separadamente, ao estilo destrinchando letras, com uma análise verso a verso.


A COMPOSIÇÃO

Não me recordo bem o que me levou a escrever essa letra. Mas algumas coisas, como a ideia de miopia social me soou interessante, quando estudava direito previdenciário para concursos públicos: um dos professores das dezenas de videoaulas que conseguia, explicando a natureza contributiva compulsória da Previdência brasileira, dizia algo do tipo: "o Estado obriga as pessoas a contribuírem com a Previdência porque elas sofrem de uma miopia social, ou seja: se deixar que elas guardem dinheiro por conta própria, para sua aposentadoria, pensarão sempre no curto prazo, gastarão tudo e ficarão desamparadas na velhice, sem condições mínimas de sobrevivência". Não vem ao caso discutir sobre isso. O fato é que aquele conceito ficou na minha cabeça, e passei a prestar atenção a outros aspectos da vida onde seria possível aplicá-lo, sobretudo quando pensava em mídia, mercado do entretenimento, educação, alienação, etc. O tal pão-e-circo, que todos conhecemos ainda na escola. 

A Distintivo Blue ainda era uma jovem banda, buscando seu estilo e tentando defini-lo principalmente através de novas composições. Tínhamos lançado nosso primeiro EP, Aplicando a Lei, no ano anterior, que foi uma verdadeira colcha de retalhos, com gravações feitas em vários momentos diferentes, e com formações diferentes. Luar do Pontal foi um experimento com uma antiga letra que eu havia composto alguns anos antes. De Cara no Blues era da mesma época, e era a primeira faixa autoral da The New Old Jam, banda de rock setentista que eu participava com Rômulo Fonseca e Camilo Oliveira. Você Roubou o Meu Pendrive era uma tiração de sarro em resposta a alguns comentários que nos apontavam como uma banda séria demais. Cada uma dessas, gravada num estúdio diferente, com pessoas diferentes. 

A banda buscava seriamente uma estabilidade em relação a integrantes. Era um verdadeiro pé no saco fazer testes e esperar que novas pessoas pegassem o ritmo da banda partindo do zero a todo instante. Chegamos a um ponto interessante, comigo, Rômulo Fonseca, Camilo Oliveira [os três fundadores da banda], mais Rodrigo Bispo no Baixo, no baixo e uma epopeia para achar um baterista fixo. Nessa configuração, fizemos quase um ano inteiro de shows sem baterista, quando me propus a tentar cantar e tocar cajón ao mesmo tempo. Entramos em estúdio para gravar nosso segundo EP, Riffs, Shuffles, Rock n' Roll. Já havíamos lançado Missing My Baby como single, gravado no estúdio de Thomaz Oliveira, onde gravamos Pendrive. Fator importantíssimo nesse cenário: grana para gravar era MUITO difícil. O esforço era gigantesco para chegar ao ponto de entrar em estúdio. E claro, baixo orçamento significa gravações não tão boas, e temos plena consciência de que não temos gravações maravilhosas em toda a nossa discografia.

Assim, em fevereiro de 2012 comecei a escrever a letra. Lembro que o "eu vejo que tudo está no fim" foi o pontapé inicial: chegou à minha mente do nada, e eu escrevi. O clima em toda a Bahia era de tensão com a "greve" dos policiais militares, que nos deixou, pela primeira vez, em uma situação semelhante à que vivemos desde 2020: lockdown, com o comércio todo fechado, por medo de assaltos. Durante alguns dias, a cidade parou de verdade. De casa, cheguei a ouvir barulhos de tiros, e isso não era comum por lá. Na TV, passava o já tradicional Big Brother Brasil 12, que virou notícia depois de um suposto caso de estupro dentro da casa. Me chamou a atenção ver um telejornal da TV Record, declarada inimiga da Globo, falando de BBB. Em todo lugar se falava de BBB, aliás. Eu tinha um e-mail no Yahoo! e me incomodava muito acessar a página inicial da plataforma e ver, nos destaques, uma atenção enorme ao reality show enquanto coisas realmente importantes aconteciam no Brasil e no exterior, como o nosso lockdown aqui na Bahia. 

Questões como a construção da usina de Belo Monte, no Pará, e seus gigantescos impactos ambientais, além do abominável acontecido no Espírito Santo, de um empresário que ateou fogo a um morador de rua também faziam parte do nosso cotidiano. Em meio a isso, lembrei de, anos antes, uma onda de calor na Europa que matou dezenas de pessoas, sem falar, é claro, do desabamento de um prédio no Rio de Janeiro, que chocou o país. Muita coisa acontecia e eu me lembrava das antigas aulas de Atualidades na escola, uma disciplina que unia geografia e história, mas abordando questões mais contemporâneas. Pensei em escrever uma letra que poderia ser utilizada numa aula dessa disciplina, para se referir àquele primeiro trimestre de 2012.

A letra, então, trata de tudo isso, mais alguns pensamentos pessoais, como a violência contra animais - que abordo, direta ou indiretamente, em outras letras, como Blues do Covarde e O Andarilho -, políticas de educação, egoísmo, hipocrisia e a própria miopia social, na parte do "pensar no presente, que é o que dá pra ver", e o meu incômodo com as escolhas da imprensa sobre o que é e o que não é realmente importante, repetida em todos os refrões: "o mundo pega fogo e só se fala em Big Brother Brasil". Bom, isso não mudou e nem demonstra sinais de que mudará, em pleno 2022. Até quando esse programa será exibido? E quando parar, que tipo de porcaria o substituirá? Nem preciso falar sobre a nova postura da emissora, que é dar seguimento ao seu projeto de alienação ideológica também através dos participantes do reality, de forma direta e aberta, ao contrário de outros tempos, onde se fingia uma imparcialidade de imprensa e se enfiava goela abaixo seus interesses sob um disfarce ou em doses homeopáticas. Bem, também não vamos nos alongar nesse tema. Se você chegou até aqui, provavelmente é capaz de analisar as coisas por conta própria.

Recorte do manuscrito original. Note que cada trecho foi escrito num momento diferente, com poucas correções.

Compus a parte musical no baixolão. O tema principal, bastante comum no blues, é uma referência a um dos meus ídolos no gênero, John Lee Hooker, que tocava sua guitarra de forma bastante peculiar e autêntica, às vezes soando até mesmo como primitiva. Sem dúvidas, uma das minhas grandes influências no blues, e basta me escutar tocando guitarra um pouco para perceber essa influência. Sem dúvidas, se eu precisasse resumir o blues em uma só pessoa, com certeza seria aquele velhinho estiloso, de óculos escuros, meias bandeirosas, terno, chapéu e sua guitarra, tocada de forma tão peculiar que é facilmente reconhecível, bem como sua voz bonita, como a de um locutor, mas com o feeling de quem passou por poucas e boas para fazer sua música acontecer. Esta foi uma canção composta sem grandes dificuldades. à época, eu não tocava violão ou baixo publicamente, mas tinha os instrumentos em casa e usava para compor. Nunca fui um bom instrumentista, mas considero ter bons ouvidos e uma mente criativa. No conforto da privacidade, conseguia materializar minhas composições e captá-las com um gravador, celular ou computador. A melodia surgiu naturalmente, à medida em que a letra ia surgindo. Como dizem, é como se uma entidade "baixasse" e fizesse todo o trabalho de criação. 


Eu tinha, como referência estética, a faixa Bank Robbery, com John Lee Hooker e Miles Davis, um instrumental cheio de improviso que faz parte da trilha sonora do filme The Hot Spot [1990]. Durante toda a primeira década de 2000, vivemos a era dos downloads de MP3. Buscando por álbuns de blues naquelas comunidades do Orkut, cheguei, em algum momento, a essa trilha. Em Vitória da Conquista, minha cidade, era difícil comprar um disco de blues: as lojas simplesmente não tinham esse tipo de música em suas prateleiras, salvo raríssimas exceções. Então, a partir de 2002, comecei uma longa jornada pela internet para descobrir artistas e suas obras. Assim conheci John Lee Hooker. Nunca assisti ao filme, mas essa faixa em especial, se tornou uma das minhas favoritas. Pensava: "eu gostaria de ter gravado essa música". A guitarra características do mestre, que também solta alguns sussuros, a bateria reta, sem firulas, o baixo idem, e o trompete com surdina às vezes até beirando a desafinação executado pelo mestre Miles Davis me encantavam toda vez em que eu escutava a faixa. Ao perceber que a minha nova música combinava com aquela atmosfera, fixei a ideia de que deveria soar de forma semelhante quando fosse tocada ao vivo e, especialmente, na gravação de estúdio. Mostrei à banda e começamos a tocar. 


TOCANDO COM A BANDA

Na banda, como eu não tinha confiança suficiente para pegar um violão e simplesmente tocar e cantar uma música nova para mostrar ao pessoal, eu fazia gravações, em casa, de como deveria ser, basicamente, cada nova composição. Assim foi com Miopia. Gravei o baixo, mixei com uma voz e mandei para a banda. Depois, era só ir falando dos detalhes durante os ensaios até chegar próximo ao que eu tinha em mente. Lembro de que deu um certo trabalho até que Rodrigo mentalizasse a parte do solo e tocasse sem errar. Na prática, era só mentalizar a letra cantada, mas sempre dava problema. Então, passei a fazer vocalizações para orientá-lo enquanto Rômulo e Camilo se viravam com suas guitarras. Eu compus a base, o riff principal, a melodia, mas não me preocupei com arranjos e solos. Isso se deu por conta deles. Geralmente, Rômulo ajudava Rodrigo a criar suas frases também. Eu sempre tinha o hábito de gravar os ensaios, para detectar erros e consertá-los e para o caso de surgir alguma nova e boa ideia, como aconteceu com Doze Horas, em 2014 [farei um post como este a respeito, no futuro]. 

Uma das gravações pareceu suficiente para que cada um trabalhasse em casa em seus próprios arranjos e na fixação. Foi quando surgiram as inscrições para o X Festival de Música da Bahia - FMB, que seria realizado no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. Eu confiava na nossa nova música e tinha até orgulho da letra que havia conseguido compor, mas era necessário o envio de uma gravação em áudio, além da letra, para a inscrição. Decidi usar a gravação que usamos como guia. Eu gosto muito desse áudio até hoje. Muitos equívocos e deslizes, mas conseguiu traduzir bem o feeling que eu desejava para ela. Enviamos. Por incrível que pareça, foi aceito e nós tocamos a nova faixa da Distintivo Blue frente a um júri e a uma plateia aberta ao novo. Chamamos o trompetista Daniel Novaes, que já havia trabalhado conosco em todas as faixas com metais lançadas até então. Ele deveria ser o Miles Davis em Bank Robbery, com sua surdina metálica.

A gravação-guia, que usamos para amadurecer a composição e participar do Festival, gravada num tablet.

Nunca me iludi de que chegaríamos à final daquele festival: todo músico sabe que esse tipo de competição foi feita para a MPB, e o blues, um estranho no ninho, dificilmente iria longe. Por isso, encarei aquela apresentação como uma forma de divulgar o trabalho. Imprimi algumas dezenas de edições da BLUEZinada! contendo mais detalhes sobre a música e a banda [Confira AQUI], cheguei um pouco mais cedo e coloquei em cada assento da plateia. Eu nem sabia de cor toda a letra naquele momento, e nem Rodrigo ainda havia resolvido seu problema da hora do solo. Mas fomos mesmo assim: coloquei uma "cola" no chão e, na hora do solo, fiquei perto de Rodrigo, fazendo as vocalizações fora do alcance do microfone. Foi uma bela experiência, mas não passamos daquela fase, logo, não chegamos à etapa em que os participantes começavam a receber alguma quantia em dinheiro, que seria extremamente útil para gravarmos nosso próximo EP. Vida que segue. A música continua viva até hoje, o festival não. Nesse mesmo ano, Na Trilha do Blues também seria classificada para o X Festival de Música da Educadora FM, em Salvador, mas também não passou da primeira fase. Pelo menos, foi tocada na rádio da capital algumas vezes, e isso é o que nos interessava àquele momento.


A GRAVAÇÃO

Apesar de a música ter nascido e se referir ao ano de 2012, ela apenas seria lançada um ano depois. Isso se deu por uma série de dificuldades enfrentadas pela banda àquele ano. Assim como era muito difícil manter uma formação estável, não percebíamos apoio por parte do público e contratantes da cidade. Na verdade, a impressão que tínhamos era a de que nossa cidade nos valorizava muito menos que outras, que jamais chegamos a conhecer. Queríamos nosso lugar enquanto banda de blues brasileira, mas o próprio blues brasileiro traz seus problemas, especialmente ligados à desunião e desorganização dos músicos, bem como o simples fato de ser, o blues, uma espécie de "alternativo do alternativo": enquanto o rock mantém suas cenas locais contornando dificuldades, mas resistindo com bravura - e este foi o cenário onde nascemos, na cena rock da nossa cidade - a cena do blues nos parecia preguiçosa e desinteressada, causando-nos grande estranhamento. 

Mesmo iniciativas de fomento, como a nossa BLUEZinada! não eram suficientes para despertar as pessoas para a existência de um grande conjunto de bandas com músicos muito talentosos precisando de alguns empurrõezinhos para fazerem acontecer. O estopim para decidirmos acabar com a banda, ao final de 2012, foi um edital para um evento promovido pela prefeitura municipal, que dizia valorizar e priorizar a música autoral, mas ficamos de fora enquanto víamos bandas cover mais bem "articuladas politicamente" sendo contempladas. Precisávamos desse tipo de evento, que pagava melhor que qualquer bar, para viabilizar nossas gravações, e esse tipo de coisa nos deixava muito frustrados. 

Nosso show no II Festival Suíça Bahiana [2011], com público recorde e horário privilegiado.

Ao final de 2011, tocamos em um grande festival independente local, chamado Festival Suíça Bahiana, do Coletivo Suíça Bahiana, do Circuito Fora do Eixo, grande máquina de fazer eventos à época, que contou com diversas bandas locais, mas também de nível nacional, como Ratos de Porão e Emicida. Tocaram todos nos mesmos dois palcos, montados lado a lado, com estrutura semelhante. Nosso show foi o primeiro do último dia, um domingo, no fim da tarde. Com um sol escaldante na cara e um público quase inexistente, fizemos nosso show. 

Era comum, aliás, nesses shows promovidos pelo Fora do Eixo, que ficássemos sempre com os piores horários. Foi assim no Grito Rock 2010, que tocamos no mesmo palco do Centro de Cultura que apresentaríamos 2012, Miopia em 2012 (e ocuparíamos por todo o ano de 2015 e 2016 com ensaios e gravações), mas com um público que se poderia contar nos dedos, e nas Noites Fora do Eixo, onde uma banda local se apresentava antes, e uma banda de fora depois. A banda que se apresentava primeiro sempre tocava para um público pequeno, "esquentando os motores" para a banda de fora, encarada como principal. Isso nos incomodava muito. Fizemos nosso trabalho nesse dia e tocamos em um espaço gigantesco para um punhado de pessoas. Horas mais tarde, aquele mesmo espaço estaria lotado. Não entendíamos o porquê de sempre ficarmos com esses horários. Passamos a duvidar da qualidade do nosso trabalho. talvez nós fôssemos, simplesmente, uma banda ruim, incapaz de gerar algum engajamento. 

Certa vez, resolvemos comprovar essa teoria. Para uma Noite Fora do Eixo com a banda Mendigos Blues, de Itabuna-BA, exigimos do produtor, a inversão de papéis: só tocaríamos se, ao invés de sermos a primeira banda, fôssemos a última. Assim, caso a banda de fora fosse realmente a atração principal, seu público viria mais cedo e a prestigiaria, e nos abandonaria em seguida. O resultado foi que os colegas de Itabuna experimentaram nossa frustração de todas as vezes anteriores, ao fazer um show para pouquíssimas pessoas e, na nossa vez, fizemos uma das melhores apresentações desde a formação da banda, com uma ótima participação do público. Nossa tese de que não seríamos capazes de fazer um bom show e conquistar o público foi derrubada: o problema era realmente uma espécie de boicote ao nosso trabalho. Sempre ficávamos com horários ruins para que fossem privilegiadas outras bandas, de forma proposital.

Nosso show no Festival Suíça Bahiana de 2011 foi difícil e nos rendeu alguns constrangimentos. Não tínhamos baterista, então contratamos Diego Oliveira, um grande músico e produtor local, atualmente conhecido por seu projeto folk chamado Benjamin, e também engenheiro de som em nossas faixas Luar do Pontal, Blues do Covarde e De Cara no Blues, sendo, também, o baterista nestas duas. Ele assumiu as baquetas neste show e em uma Noite Fora do Eixo, onde gravamos a versão bootleg de Luar do Pontal, publicada como faixa-bônus no EP Riffs, Shuffles, Rock n' Roll (2012). Não tínhamos dinheiro para pagar seu cachê, então, contávamos com o pagamento pelo show do festival para pagá-lo e usar o restante para entrar em estúdio. O fato é que não recebemos o pagamento. Meses se passaram, e Diego, com razão - afinal, ele precisava ser remunerado pelo serviço como um músico contratado, e não como um membro da banda, que recebia calotes - já havia demonstrado sua insatisfação. 

Durante algumas vezes, o Coletivo nos dava a mesma resposta: "não temos dinheiro para pagá-los agora". Cheguei a me reunir com membros de outras bandas locais que também se apresentaram no festival para discutir alguma forma de sermos pagos. Não deu muito certo e não saíamos do lugar. Foi quanto tive uma ideia, ao perceber que o Coletivo mantinha uma espécie de parceria com o Estúdio Drummond, onde gravamos Na Trilha do Blues, My Business Blues e O Álcool Me Persegue anteriormente. Entramos em contato perguntando o valor da gravação por faixa. R$500,00 era o valor à época. Exatamente o valor do cachê que batalhávamos para receber pela apresentação no festival. Decidimos ir ao escritório do Coletivo mais uma vez, com a intenção de cobrar e, caso recebêssemos mais uma negativa, apresentar um plano alternativo: fazer uma permuta com o estúdio para gravar 2012, Miopia

Entramos ao escritório como membros da família Corleone: enfileirados, mal-encarados e fechamos a porta para conversar. Aconteceu o que prevíamos: o plano B foi aceito e, dias depois, fomos contatados pelo estúdio para nos avisar que tínhamos o crédito de gravação de uma faixa. Entramos em estúdio, então. Nesse ponto, já contávamos com Weslei Lima (Corega) como baterista fixo, e a música já estava suficientemente amadurecida para gravar. Chamamos Daniel Novaes mais uma vez para gravar os trompetes, e Chico Novais (sax) e Paulinho do Trombone para fazerem unicamente a nota final da música. Em geral, considero o resultado como uma boa gravação. Ainda não seria dessa vez que eu conseguiria transmitir exatamente o que tinha em mente para a banda, mas, escutando hoje, ainda considero uma das melhores que já gravamos. Os detalhes de bumbo e caixa que são simples, mas quando não observados, fazem a música perder expressividade, foram registrados e o riff não perdeu muito do feeling que eu imaginava. 

Lançamos a música como um "compacto" à moda antiga, ou seja: lado A com 2012, Miopia e lado B com Pendrive (karaoke-joes), que eu mesmo produzi em casa, com as pistas de Você Roubou o Meu Pendrive. Como eu considero todas as vozes da nossa discografia ruins, fazer versões instrumentais acabou sendo até uma forma de escutar as músicas sem me contorcer de agonia. Isso se deve muito porque eu ainda não havia descoberto a afinação ideal para a minha voz, que é a bemol, como fez Stevie Ray Vaughan. Sobre isto, falarei melhor posteriormente. A capa do single contém uma foto de um show da banda em 2010, no Viela Sebo-Café, obviamente, "embaçada", como enxerga o mundo alguém que, como eu, sofre de miopia. 


A REPERCUSSÃO

Por ter uma letra crítica e direta, citando nomes e pouco otimista, e um instrumental "reto" e simples, considero 2012, Miopia um legítimo "punk-blues" brasileiro. A recepção do fonograma foi interessante: não houve um "oba-oba" de imediato, mas doses "homeopáticas" de reação, que duram até hoje. Conseguimos fazer com que tocasse em algumas rádios universitárias e programas independentes pelo Brasil. Nesta época, nosso ativismo pelo que chamo de BRBlues (o blues autoral brasileiro, cantado em português) estava indo bem, apesar de a banda ainda estar, tecnicamente, encerrada, como citei anteriormente. Só retornaríamos ao final de 2013, em um show na Casa do Rock, em Vitória da Conquista, para só se desmembrar novamente em 2017.

Desde o lançamento, curiosamente, muitos elementos da letra se repetiram, por diversas vezes. A "greve" da Polícia Militar da Bahia de 2012 também aconteceu posteriormente em outros estados, como o Ceará e Espírito Santo. O BBB continua firme e forte, inclusive sendo o programa mais rentável da emissora. Problemas ambientais, violência contra animais, moradores de rua, desabamentos... Tudo isso continua acontecendo. O curioso é que, por algum motivo, coisas assim costumam ganhar maior projeção justamente no primeiro trimestre do ano, quando as notícias dividem espaço com o reality show

O lyric video de 2012, Miopia, lançado em 2016.

Em 2016, lançamos um lyric video produzido sob encomenda por Thomaz Oliveira, parceiro de longa data. A minha ideia para ele foi, basicamente: "aqui está a nossa arte. faça agora a sua arte sobre ela". Assim, não interferi muito na produção do vídeo: apenas forneci bastante material gráfico, a letra e outras informações para que ele deixasse a imaginação fluir à vontade. O espaço de comentários do vídeo no YouTube continua recebendo mensagens das pessoas até hoje, e funciona como nosso melhor termômetro. Uma música que foi composta com a intenção de ser datada tornou-se atemporal, quem diria... Vale a pena acessar o vídeo diretamente em sua plataforma e dar uma lida nos comentários. 

Seria hipocrisia de minha parte se dissesse que não sinto orgulho por ter criado essa música, cuja letra já foi publicada em um livro produzido pelo Clube Caiubi de Compositores e no jornal do Centro Acadêmico do curso de Direito da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Também houve banda fazendo cover por aí, o que nos honra muito. Desde o ano passado venho trabalhando em uma nova canção, como uma espécie de "continuação" da história, inspirado por inúmeros pedidos de uma nova letra. Por incrível que pareça, a partir de 2020, tivemos até mesmo um "[...] não temos saúde, trancados em casa, sem ter quem nos ajude" que também chamou a atenção das pessoas quarentenadas. A nova música chama-se 2021, Miopia, alterando-se apenas a disposição dos números, e será lançada em meu projeto solo, Joe Malfs Clan, com um instrumental também em homenagem a um mestre do blues. Aguarde novidades.

Esta é a história por trás da nossa faixa 2012, Miopia. Sentiu falta de algum detalhe que não foi esclarecido? Escreva nos comentários e atualizaremos o texto.




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Publicado por I. Malförea

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A história por trás de "2012, Miopia"

A capa do compacto, lançado em 2013.

Completando, no primeiro trimestre de 2022, dez anos, 2012, Miopia continua sendo uma das nossas mais importantes canções, sempre pedida por fãs e ainda recebendo comentários no YouTube e outras plataformas, em muito se devendo a elementos na letra que seguiram se repetindo até hoje, sobretudo na sociedade brasileira, o que não era a minha intenção quando a compus: a ideia de uma música chamada 2012, Miopia era ser propositadamente datada, como uma espécie de "fotografia sonora" dos acontecimentos que mais me chamaram a atenção naquele momento.

Penso que, para analisar profundamente esta canção, devo abordar pelo menos quatro aspectos: 1) a letra em si; 2) o processo de criação musical junto à banda e sua inserção ao nosso repertório 3) a produção do fonograma e 4) a repercussão junto ao público. Neste texto, tentarei abordar todos, mas não me debruçando tanto sobre o item 1, que ganhará um texto próprio, separadamente, ao estilo destrinchando letras, com uma análise verso a verso.


A COMPOSIÇÃO

Não me recordo bem o que me levou a escrever essa letra. Mas algumas coisas, como a ideia de miopia social me soou interessante, quando estudava direito previdenciário para concursos públicos: um dos professores das dezenas de videoaulas que conseguia, explicando a natureza contributiva compulsória da Previdência brasileira, dizia algo do tipo: "o Estado obriga as pessoas a contribuírem com a Previdência porque elas sofrem de uma miopia social, ou seja: se deixar que elas guardem dinheiro por conta própria, para sua aposentadoria, pensarão sempre no curto prazo, gastarão tudo e ficarão desamparadas na velhice, sem condições mínimas de sobrevivência". Não vem ao caso discutir sobre isso. O fato é que aquele conceito ficou na minha cabeça, e passei a prestar atenção a outros aspectos da vida onde seria possível aplicá-lo, sobretudo quando pensava em mídia, mercado do entretenimento, educação, alienação, etc. O tal pão-e-circo, que todos conhecemos ainda na escola. 

A Distintivo Blue ainda era uma jovem banda, buscando seu estilo e tentando defini-lo principalmente através de novas composições. Tínhamos lançado nosso primeiro EP, Aplicando a Lei, no ano anterior, que foi uma verdadeira colcha de retalhos, com gravações feitas em vários momentos diferentes, e com formações diferentes. Luar do Pontal foi um experimento com uma antiga letra que eu havia composto alguns anos antes. De Cara no Blues era da mesma época, e era a primeira faixa autoral da The New Old Jam, banda de rock setentista que eu participava com Rômulo Fonseca e Camilo Oliveira. Você Roubou o Meu Pendrive era uma tiração de sarro em resposta a alguns comentários que nos apontavam como uma banda séria demais. Cada uma dessas, gravada num estúdio diferente, com pessoas diferentes. 

A banda buscava seriamente uma estabilidade em relação a integrantes. Era um verdadeiro pé no saco fazer testes e esperar que novas pessoas pegassem o ritmo da banda partindo do zero a todo instante. Chegamos a um ponto interessante, comigo, Rômulo Fonseca, Camilo Oliveira [os três fundadores da banda], mais Rodrigo Bispo no Baixo, no baixo e uma epopeia para achar um baterista fixo. Nessa configuração, fizemos quase um ano inteiro de shows sem baterista, quando me propus a tentar cantar e tocar cajón ao mesmo tempo. Entramos em estúdio para gravar nosso segundo EP, Riffs, Shuffles, Rock n' Roll. Já havíamos lançado Missing My Baby como single, gravado no estúdio de Thomaz Oliveira, onde gravamos Pendrive. Fator importantíssimo nesse cenário: grana para gravar era MUITO difícil. O esforço era gigantesco para chegar ao ponto de entrar em estúdio. E claro, baixo orçamento significa gravações não tão boas, e temos plena consciência de que não temos gravações maravilhosas em toda a nossa discografia.

Assim, em fevereiro de 2012 comecei a escrever a letra. Lembro que o "eu vejo que tudo está no fim" foi o pontapé inicial: chegou à minha mente do nada, e eu escrevi. O clima em toda a Bahia era de tensão com a "greve" dos policiais militares, que nos deixou, pela primeira vez, em uma situação semelhante à que vivemos desde 2020: lockdown, com o comércio todo fechado, por medo de assaltos. Durante alguns dias, a cidade parou de verdade. De casa, cheguei a ouvir barulhos de tiros, e isso não era comum por lá. Na TV, passava o já tradicional Big Brother Brasil 12, que virou notícia depois de um suposto caso de estupro dentro da casa. Me chamou a atenção ver um telejornal da TV Record, declarada inimiga da Globo, falando de BBB. Em todo lugar se falava de BBB, aliás. Eu tinha um e-mail no Yahoo! e me incomodava muito acessar a página inicial da plataforma e ver, nos destaques, uma atenção enorme ao reality show enquanto coisas realmente importantes aconteciam no Brasil e no exterior, como o nosso lockdown aqui na Bahia. 

Questões como a construção da usina de Belo Monte, no Pará, e seus gigantescos impactos ambientais, além do abominável acontecido no Espírito Santo, de um empresário que ateou fogo a um morador de rua também faziam parte do nosso cotidiano. Em meio a isso, lembrei de, anos antes, uma onda de calor na Europa que matou dezenas de pessoas, sem falar, é claro, do desabamento de um prédio no Rio de Janeiro, que chocou o país. Muita coisa acontecia e eu me lembrava das antigas aulas de Atualidades na escola, uma disciplina que unia geografia e história, mas abordando questões mais contemporâneas. Pensei em escrever uma letra que poderia ser utilizada numa aula dessa disciplina, para se referir àquele primeiro trimestre de 2012.

A letra, então, trata de tudo isso, mais alguns pensamentos pessoais, como a violência contra animais - que abordo, direta ou indiretamente, em outras letras, como Blues do Covarde e O Andarilho -, políticas de educação, egoísmo, hipocrisia e a própria miopia social, na parte do "pensar no presente, que é o que dá pra ver", e o meu incômodo com as escolhas da imprensa sobre o que é e o que não é realmente importante, repetida em todos os refrões: "o mundo pega fogo e só se fala em Big Brother Brasil". Bom, isso não mudou e nem demonstra sinais de que mudará, em pleno 2022. Até quando esse programa será exibido? E quando parar, que tipo de porcaria o substituirá? Nem preciso falar sobre a nova postura da emissora, que é dar seguimento ao seu projeto de alienação ideológica também através dos participantes do reality, de forma direta e aberta, ao contrário de outros tempos, onde se fingia uma imparcialidade de imprensa e se enfiava goela abaixo seus interesses sob um disfarce ou em doses homeopáticas. Bem, também não vamos nos alongar nesse tema. Se você chegou até aqui, provavelmente é capaz de analisar as coisas por conta própria.

Recorte do manuscrito original. Note que cada trecho foi escrito num momento diferente, com poucas correções.

Compus a parte musical no baixolão. O tema principal, bastante comum no blues, é uma referência a um dos meus ídolos no gênero, John Lee Hooker, que tocava sua guitarra de forma bastante peculiar e autêntica, às vezes soando até mesmo como primitiva. Sem dúvidas, uma das minhas grandes influências no blues, e basta me escutar tocando guitarra um pouco para perceber essa influência. Sem dúvidas, se eu precisasse resumir o blues em uma só pessoa, com certeza seria aquele velhinho estiloso, de óculos escuros, meias bandeirosas, terno, chapéu e sua guitarra, tocada de forma tão peculiar que é facilmente reconhecível, bem como sua voz bonita, como a de um locutor, mas com o feeling de quem passou por poucas e boas para fazer sua música acontecer. Esta foi uma canção composta sem grandes dificuldades. à época, eu não tocava violão ou baixo publicamente, mas tinha os instrumentos em casa e usava para compor. Nunca fui um bom instrumentista, mas considero ter bons ouvidos e uma mente criativa. No conforto da privacidade, conseguia materializar minhas composições e captá-las com um gravador, celular ou computador. A melodia surgiu naturalmente, à medida em que a letra ia surgindo. Como dizem, é como se uma entidade "baixasse" e fizesse todo o trabalho de criação. 


Eu tinha, como referência estética, a faixa Bank Robbery, com John Lee Hooker e Miles Davis, um instrumental cheio de improviso que faz parte da trilha sonora do filme The Hot Spot [1990]. Durante toda a primeira década de 2000, vivemos a era dos downloads de MP3. Buscando por álbuns de blues naquelas comunidades do Orkut, cheguei, em algum momento, a essa trilha. Em Vitória da Conquista, minha cidade, era difícil comprar um disco de blues: as lojas simplesmente não tinham esse tipo de música em suas prateleiras, salvo raríssimas exceções. Então, a partir de 2002, comecei uma longa jornada pela internet para descobrir artistas e suas obras. Assim conheci John Lee Hooker. Nunca assisti ao filme, mas essa faixa em especial, se tornou uma das minhas favoritas. Pensava: "eu gostaria de ter gravado essa música". A guitarra características do mestre, que também solta alguns sussuros, a bateria reta, sem firulas, o baixo idem, e o trompete com surdina às vezes até beirando a desafinação executado pelo mestre Miles Davis me encantavam toda vez em que eu escutava a faixa. Ao perceber que a minha nova música combinava com aquela atmosfera, fixei a ideia de que deveria soar de forma semelhante quando fosse tocada ao vivo e, especialmente, na gravação de estúdio. Mostrei à banda e começamos a tocar. 


TOCANDO COM A BANDA

Na banda, como eu não tinha confiança suficiente para pegar um violão e simplesmente tocar e cantar uma música nova para mostrar ao pessoal, eu fazia gravações, em casa, de como deveria ser, basicamente, cada nova composição. Assim foi com Miopia. Gravei o baixo, mixei com uma voz e mandei para a banda. Depois, era só ir falando dos detalhes durante os ensaios até chegar próximo ao que eu tinha em mente. Lembro de que deu um certo trabalho até que Rodrigo mentalizasse a parte do solo e tocasse sem errar. Na prática, era só mentalizar a letra cantada, mas sempre dava problema. Então, passei a fazer vocalizações para orientá-lo enquanto Rômulo e Camilo se viravam com suas guitarras. Eu compus a base, o riff principal, a melodia, mas não me preocupei com arranjos e solos. Isso se deu por conta deles. Geralmente, Rômulo ajudava Rodrigo a criar suas frases também. Eu sempre tinha o hábito de gravar os ensaios, para detectar erros e consertá-los e para o caso de surgir alguma nova e boa ideia, como aconteceu com Doze Horas, em 2014 [farei um post como este a respeito, no futuro]. 

Uma das gravações pareceu suficiente para que cada um trabalhasse em casa em seus próprios arranjos e na fixação. Foi quando surgiram as inscrições para o X Festival de Música da Bahia - FMB, que seria realizado no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. Eu confiava na nossa nova música e tinha até orgulho da letra que havia conseguido compor, mas era necessário o envio de uma gravação em áudio, além da letra, para a inscrição. Decidi usar a gravação que usamos como guia. Eu gosto muito desse áudio até hoje. Muitos equívocos e deslizes, mas conseguiu traduzir bem o feeling que eu desejava para ela. Enviamos. Por incrível que pareça, foi aceito e nós tocamos a nova faixa da Distintivo Blue frente a um júri e a uma plateia aberta ao novo. Chamamos o trompetista Daniel Novaes, que já havia trabalhado conosco em todas as faixas com metais lançadas até então. Ele deveria ser o Miles Davis em Bank Robbery, com sua surdina metálica.

A gravação-guia, que usamos para amadurecer a composição e participar do Festival, gravada num tablet.

Nunca me iludi de que chegaríamos à final daquele festival: todo músico sabe que esse tipo de competição foi feita para a MPB, e o blues, um estranho no ninho, dificilmente iria longe. Por isso, encarei aquela apresentação como uma forma de divulgar o trabalho. Imprimi algumas dezenas de edições da BLUEZinada! contendo mais detalhes sobre a música e a banda [Confira AQUI], cheguei um pouco mais cedo e coloquei em cada assento da plateia. Eu nem sabia de cor toda a letra naquele momento, e nem Rodrigo ainda havia resolvido seu problema da hora do solo. Mas fomos mesmo assim: coloquei uma "cola" no chão e, na hora do solo, fiquei perto de Rodrigo, fazendo as vocalizações fora do alcance do microfone. Foi uma bela experiência, mas não passamos daquela fase, logo, não chegamos à etapa em que os participantes começavam a receber alguma quantia em dinheiro, que seria extremamente útil para gravarmos nosso próximo EP. Vida que segue. A música continua viva até hoje, o festival não. Nesse mesmo ano, Na Trilha do Blues também seria classificada para o X Festival de Música da Educadora FM, em Salvador, mas também não passou da primeira fase. Pelo menos, foi tocada na rádio da capital algumas vezes, e isso é o que nos interessava àquele momento.


A GRAVAÇÃO

Apesar de a música ter nascido e se referir ao ano de 2012, ela apenas seria lançada um ano depois. Isso se deu por uma série de dificuldades enfrentadas pela banda àquele ano. Assim como era muito difícil manter uma formação estável, não percebíamos apoio por parte do público e contratantes da cidade. Na verdade, a impressão que tínhamos era a de que nossa cidade nos valorizava muito menos que outras, que jamais chegamos a conhecer. Queríamos nosso lugar enquanto banda de blues brasileira, mas o próprio blues brasileiro traz seus problemas, especialmente ligados à desunião e desorganização dos músicos, bem como o simples fato de ser, o blues, uma espécie de "alternativo do alternativo": enquanto o rock mantém suas cenas locais contornando dificuldades, mas resistindo com bravura - e este foi o cenário onde nascemos, na cena rock da nossa cidade - a cena do blues nos parecia preguiçosa e desinteressada, causando-nos grande estranhamento. 

Mesmo iniciativas de fomento, como a nossa BLUEZinada! não eram suficientes para despertar as pessoas para a existência de um grande conjunto de bandas com músicos muito talentosos precisando de alguns empurrõezinhos para fazerem acontecer. O estopim para decidirmos acabar com a banda, ao final de 2012, foi um edital para um evento promovido pela prefeitura municipal, que dizia valorizar e priorizar a música autoral, mas ficamos de fora enquanto víamos bandas cover mais bem "articuladas politicamente" sendo contempladas. Precisávamos desse tipo de evento, que pagava melhor que qualquer bar, para viabilizar nossas gravações, e esse tipo de coisa nos deixava muito frustrados. 

Nosso show no II Festival Suíça Bahiana [2011], com público recorde e horário privilegiado.

Ao final de 2011, tocamos em um grande festival independente local, chamado Festival Suíça Bahiana, do Coletivo Suíça Bahiana, do Circuito Fora do Eixo, grande máquina de fazer eventos à época, que contou com diversas bandas locais, mas também de nível nacional, como Ratos de Porão e Emicida. Tocaram todos nos mesmos dois palcos, montados lado a lado, com estrutura semelhante. Nosso show foi o primeiro do último dia, um domingo, no fim da tarde. Com um sol escaldante na cara e um público quase inexistente, fizemos nosso show. 

Era comum, aliás, nesses shows promovidos pelo Fora do Eixo, que ficássemos sempre com os piores horários. Foi assim no Grito Rock 2010, que tocamos no mesmo palco do Centro de Cultura que apresentaríamos 2012, Miopia em 2012 (e ocuparíamos por todo o ano de 2015 e 2016 com ensaios e gravações), mas com um público que se poderia contar nos dedos, e nas Noites Fora do Eixo, onde uma banda local se apresentava antes, e uma banda de fora depois. A banda que se apresentava primeiro sempre tocava para um público pequeno, "esquentando os motores" para a banda de fora, encarada como principal. Isso nos incomodava muito. Fizemos nosso trabalho nesse dia e tocamos em um espaço gigantesco para um punhado de pessoas. Horas mais tarde, aquele mesmo espaço estaria lotado. Não entendíamos o porquê de sempre ficarmos com esses horários. Passamos a duvidar da qualidade do nosso trabalho. talvez nós fôssemos, simplesmente, uma banda ruim, incapaz de gerar algum engajamento. 

Certa vez, resolvemos comprovar essa teoria. Para uma Noite Fora do Eixo com a banda Mendigos Blues, de Itabuna-BA, exigimos do produtor, a inversão de papéis: só tocaríamos se, ao invés de sermos a primeira banda, fôssemos a última. Assim, caso a banda de fora fosse realmente a atração principal, seu público viria mais cedo e a prestigiaria, e nos abandonaria em seguida. O resultado foi que os colegas de Itabuna experimentaram nossa frustração de todas as vezes anteriores, ao fazer um show para pouquíssimas pessoas e, na nossa vez, fizemos uma das melhores apresentações desde a formação da banda, com uma ótima participação do público. Nossa tese de que não seríamos capazes de fazer um bom show e conquistar o público foi derrubada: o problema era realmente uma espécie de boicote ao nosso trabalho. Sempre ficávamos com horários ruins para que fossem privilegiadas outras bandas, de forma proposital.

Nosso show no Festival Suíça Bahiana de 2011 foi difícil e nos rendeu alguns constrangimentos. Não tínhamos baterista, então contratamos Diego Oliveira, um grande músico e produtor local, atualmente conhecido por seu projeto folk chamado Benjamin, e também engenheiro de som em nossas faixas Luar do Pontal, Blues do Covarde e De Cara no Blues, sendo, também, o baterista nestas duas. Ele assumiu as baquetas neste show e em uma Noite Fora do Eixo, onde gravamos a versão bootleg de Luar do Pontal, publicada como faixa-bônus no EP Riffs, Shuffles, Rock n' Roll (2012). Não tínhamos dinheiro para pagar seu cachê, então, contávamos com o pagamento pelo show do festival para pagá-lo e usar o restante para entrar em estúdio. O fato é que não recebemos o pagamento. Meses se passaram, e Diego, com razão - afinal, ele precisava ser remunerado pelo serviço como um músico contratado, e não como um membro da banda, que recebia calotes - já havia demonstrado sua insatisfação. 

Durante algumas vezes, o Coletivo nos dava a mesma resposta: "não temos dinheiro para pagá-los agora". Cheguei a me reunir com membros de outras bandas locais que também se apresentaram no festival para discutir alguma forma de sermos pagos. Não deu muito certo e não saíamos do lugar. Foi quanto tive uma ideia, ao perceber que o Coletivo mantinha uma espécie de parceria com o Estúdio Drummond, onde gravamos Na Trilha do Blues, My Business Blues e O Álcool Me Persegue anteriormente. Entramos em contato perguntando o valor da gravação por faixa. R$500,00 era o valor à época. Exatamente o valor do cachê que batalhávamos para receber pela apresentação no festival. Decidimos ir ao escritório do Coletivo mais uma vez, com a intenção de cobrar e, caso recebêssemos mais uma negativa, apresentar um plano alternativo: fazer uma permuta com o estúdio para gravar 2012, Miopia

Entramos ao escritório como membros da família Corleone: enfileirados, mal-encarados e fechamos a porta para conversar. Aconteceu o que prevíamos: o plano B foi aceito e, dias depois, fomos contatados pelo estúdio para nos avisar que tínhamos o crédito de gravação de uma faixa. Entramos em estúdio, então. Nesse ponto, já contávamos com Weslei Lima (Corega) como baterista fixo, e a música já estava suficientemente amadurecida para gravar. Chamamos Daniel Novaes mais uma vez para gravar os trompetes, e Chico Novais (sax) e Paulinho do Trombone para fazerem unicamente a nota final da música. Em geral, considero o resultado como uma boa gravação. Ainda não seria dessa vez que eu conseguiria transmitir exatamente o que tinha em mente para a banda, mas, escutando hoje, ainda considero uma das melhores que já gravamos. Os detalhes de bumbo e caixa que são simples, mas quando não observados, fazem a música perder expressividade, foram registrados e o riff não perdeu muito do feeling que eu imaginava. 

Lançamos a música como um "compacto" à moda antiga, ou seja: lado A com 2012, Miopia e lado B com Pendrive (karaoke-joes), que eu mesmo produzi em casa, com as pistas de Você Roubou o Meu Pendrive. Como eu considero todas as vozes da nossa discografia ruins, fazer versões instrumentais acabou sendo até uma forma de escutar as músicas sem me contorcer de agonia. Isso se deve muito porque eu ainda não havia descoberto a afinação ideal para a minha voz, que é a bemol, como fez Stevie Ray Vaughan. Sobre isto, falarei melhor posteriormente. A capa do single contém uma foto de um show da banda em 2010, no Viela Sebo-Café, obviamente, "embaçada", como enxerga o mundo alguém que, como eu, sofre de miopia. 


A REPERCUSSÃO

Por ter uma letra crítica e direta, citando nomes e pouco otimista, e um instrumental "reto" e simples, considero 2012, Miopia um legítimo "punk-blues" brasileiro. A recepção do fonograma foi interessante: não houve um "oba-oba" de imediato, mas doses "homeopáticas" de reação, que duram até hoje. Conseguimos fazer com que tocasse em algumas rádios universitárias e programas independentes pelo Brasil. Nesta época, nosso ativismo pelo que chamo de BRBlues (o blues autoral brasileiro, cantado em português) estava indo bem, apesar de a banda ainda estar, tecnicamente, encerrada, como citei anteriormente. Só retornaríamos ao final de 2013, em um show na Casa do Rock, em Vitória da Conquista, para só se desmembrar novamente em 2017.

Desde o lançamento, curiosamente, muitos elementos da letra se repetiram, por diversas vezes. A "greve" da Polícia Militar da Bahia de 2012 também aconteceu posteriormente em outros estados, como o Ceará e Espírito Santo. O BBB continua firme e forte, inclusive sendo o programa mais rentável da emissora. Problemas ambientais, violência contra animais, moradores de rua, desabamentos... Tudo isso continua acontecendo. O curioso é que, por algum motivo, coisas assim costumam ganhar maior projeção justamente no primeiro trimestre do ano, quando as notícias dividem espaço com o reality show

O lyric video de 2012, Miopia, lançado em 2016.

Em 2016, lançamos um lyric video produzido sob encomenda por Thomaz Oliveira, parceiro de longa data. A minha ideia para ele foi, basicamente: "aqui está a nossa arte. faça agora a sua arte sobre ela". Assim, não interferi muito na produção do vídeo: apenas forneci bastante material gráfico, a letra e outras informações para que ele deixasse a imaginação fluir à vontade. O espaço de comentários do vídeo no YouTube continua recebendo mensagens das pessoas até hoje, e funciona como nosso melhor termômetro. Uma música que foi composta com a intenção de ser datada tornou-se atemporal, quem diria... Vale a pena acessar o vídeo diretamente em sua plataforma e dar uma lida nos comentários. 

Seria hipocrisia de minha parte se dissesse que não sinto orgulho por ter criado essa música, cuja letra já foi publicada em um livro produzido pelo Clube Caiubi de Compositores e no jornal do Centro Acadêmico do curso de Direito da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Também houve banda fazendo cover por aí, o que nos honra muito. Desde o ano passado venho trabalhando em uma nova canção, como uma espécie de "continuação" da história, inspirado por inúmeros pedidos de uma nova letra. Por incrível que pareça, a partir de 2020, tivemos até mesmo um "[...] não temos saúde, trancados em casa, sem ter quem nos ajude" que também chamou a atenção das pessoas quarentenadas. A nova música chama-se 2021, Miopia, alterando-se apenas a disposição dos números, e será lançada em meu projeto solo, Joe Malfs Clan, com um instrumental também em homenagem a um mestre do blues. Aguarde novidades.

Esta é a história por trás da nossa faixa 2012, Miopia. Sentiu falta de algum detalhe que não foi esclarecido? Escreva nos comentários e atualizaremos o texto.



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